02/10/2019 às 19h23min - Atualizada em 02/10/2019 às 19h23min

EUA: o olhar de um afro-americano para o país da segregação e das desigualdades sociais

Onde eu morei e a forma como eu cresci foi tão “negro” e segregado que eu nem tive contato com pessoas brancas durante a minha infância. Só quando fiquei mais velho eu percebi o quão diferente nossas culturas realmente são. Os Estados Unidos não é um lugar monolítico, você não pode comparar a riqueza daquele país com outros países do mundo, pois você estará olhando apenas para a riqueza branca.

Lena Silva

Eu odeio a paixão que os brasileiros têm com os Estados Unidos. É como admirar alguém, titulando-a a pessoa mais bonita do mundo, mesmo sem nunca ter visto com ou sem maquiagem, sem conhecer o seu caráter e a maneira de como essa pessoa trata as outras. 

Mas ainda assim, você jura que é perfeita. Eu odeio que a informação que muitos brasileiros têm sobre a vida nos EUA é baseada em uma imagem da Disney retratada em muitos filmes e vídeos de rap ostentação. Mas não tem ideia de como é a vida dos negros pobres que sobrevivem nas quebradas lá. 

A maioria das pessoas aqui (no Brasil) me chamam de americano, acho que isso nunca será normal pra mim.  Eu não lembro de ser chamado assim nos Estados Unidos, provavelmente aconteceu, mas com certeza foi apenas por estrangeiros que moram e talvez ainda não entendem como o sistema funciona para nós pretos. 

Lá, parece que os únicos "americanos" são brancos, os cidadãos ‘não brancos’ normalmente colocam sua etnia, nacionalidade ou cor antes da palavra americano. Então eu me vejo como Afro-Americano (African American) ou Negro Americano (Black American), para nós, somos tão diferentes (brancos e pretos nos EUA) quanto brasileiros e argentinos. Nossa cultura é diferente, na maioria dos casos nossa religião também, como a Igreja Batista negra é muito diferente das igrejas que os brancos seguem. 

Minha família por parte da minha mãe são da ‘Black Baptist Church’ e meu pai seguiu Malcolm X e Elijah Muhammad na ‘Nação do Islã’ uma sub religião Islâmica voltado para os pretos, como o idealizador Fard Muhammad dizia - ‘A tribo perdida na América do Norte’ e esta organização religiosa ensina sobre orgulho negro, afro-centrismo, disciplina, economia, e que o homem branco é o diabo e o motivo por tudo que é errado no mundo

Na comunidade afro-americana até mesmo o nosso idioma é diferente, chamado AAVE (African-American Vernacular English) ou Ebonics, um “dialeto” falado por pretos por isso não é reconhecido ou muito inteligível para as pessoas brancas e não negras em geral, ou seja, se colocasse um americano branco que não conhece nossa cultura dentro de uma cidade ou bairro preto, provavelmente ele não irá nos entender muito. Nossa gastronomia típica também é diferente, chamamos de Soul Food, a nossa música, os nossos esportes, as nossas manifestações culturais e entretenimento, tudo é diferente da cultura Norte-Americana.

Os Estados Unidos não é um lugar monolítico, você não pode comparar a riqueza daquele país com outros países do mundo, pois você estará olhando apenas para a riqueza branca. Você não pode comparar as estatísticas de crime e homicídio porque desse jeito não estaria levando em consideração o jeito que o país funciona racial, social e geograficamente falando. Vou usar mais exemplos para explicar o que estou tentando dizer e espero que você possa compreender com mente aberta.
 

Muitos brasileiros assistem filmes dos EUA que mostram os confortos e a vida cotidiana da classe média e pensam: seria maravilhoso viver naquele mundo, ter dinheiro e viver livre de crime e miséria, depressão, doença, lixo e pessoas em situação de rua, livre da péssima educação e da água “potável” que na verdade é tóxica. 

Saibam que nós assistimos a esses filmes e pensamos a mesma coisa. A cidade que eu nasci se chama Newark e fica no estado de Nova Jersey. Lá temos água potável que porém é contaminada por substâncias nocivas, as fontes de água na maioria das escolas foram fechadas, Flint Michigan famosa por ter água potencialmente mortal também é outra cidade negra que está lidando com essas problemáticas. Problemas que num país rico como USA poderiam ser resolvidos, mas a vida negra lá é extremamente e nitidamente desvalorizada. 

Onde eu morei e a forma como eu cresci foi tão ‘negro’ e segregado que eu nem tive contato com pessoas brancas durante a minha infância. Só quando fiquei mais velho eu percebi o quão diferente nossas culturas realmente são. Nossa Nação Negra-Americana é um país a parte dos Estados Unidos que o mundo conhece, e deve ser observado de forma diferente do que apenas olhar para as estatísticas dos EUA. 

Como a maioria dos negros vive em comunidades segregadas, muitas vezes todas as pequenas cidades negras como a minha, conta com governantes negros e agendas negras. Porém a parte econômica é fraca, não temos muitos empreendimentos, os  comércios dentro dos nossos guetos mesmo em nossas áreas negras, é dominado por estrangeiros de diversas etnias, então infelizmente o nosso dinheiro não circula entre nós afro-americanos, não se tem a ideologia do Black Money.  

Os EUA é um país branco, rico e de classe média, com baixo índice de crime, também inclui os membros de várias outras raças que conseguiram escapar da pobreza. A Nação Negra Americana é uma das com maior nível de criminalidade e pobreza. Há também um pequeno país Nativo Americano com povos indígenas segregados em reservas em condições ainda mais miseráveis, contendo uma das maiores taxas de alcoolismo e suicídio do mundo. 

A América Negra teria uma população de cerca de 9 á 10 milhões de pessoas, a mesma população de muitos países africanos. Se você olhar para a taxa de homicídios no Brasil, irá ver que 29,53 dos 100.000 cidadãos em 2018. Se olhar para o país dos EUA foi 5.10 de 100.000 e você pensa, ‘wow’ que lugar seguro. Mas se você estiver no país da “América Negra”, verá 20,44 de cada 100.000.  Ainda é um número menor do que o Brasil, mas maior do que a maioria dos países do mundo.

Em São Paulo, a cidade onde moro atualmente, é cheio de pessoas pessimistas que até distorcem a realidade; todo mundo sempre fala que eu estaria mais seguro lá em Newark. Bem, vamos olhar a taxa de homicídios na cidade de São Paulo, uma vez nos anos noventa até  o início de 2000, teve uma taxa de homicídios de 52 por 100.000 cidadãos, agora é de 6,1 por 100.000 cidadãos!! Enquanto minha cidade (Newark), o único lugar onde eu teria condições para morar se encontra uma taxa de 35,8 por 100.000 pessoas, muito mais perto do Rio de Janeiro com 39 por 100.000 cidadãos infelizmente.

Meu irmão mais velho, dois tios e vários primos foram assassinados em Newark, Nova Jersey.  Eu conheço tantas pessoas que tiveram suas vidas destruídas por drogas, violência e miséria. Sem conhecer a história da vida de alguém e de onde esta pessoa vêm, seus ideais e seus sonhos, como sugerir à ela o que é bom ou ruim? As pessoas têm um relacionamento com o materialismo, eu entendo isso e entendo que muitas coisas são mais baratas lá, como produtos, carros e produtos eletrônicos. Mas isso é algo que eu só aprendi quando me mudei para o Brasil porque pra mim lá era tudo caro de qualquer maneira, eu nunca tive muitas coisas, mas carro sempre tive, sempre comprei carros usados cheios de problemas, era o que as minhas condições financeiras permitiam. O que as pessoas não entendem é que nos EUA os serviços são muito mais caros, então consertar meu carro sempre foi uma luta, consumia todo o dinheiro que eu tinha e eu não podia fazer a menos, eu precisava ter um carro porque o transporte público é muito limitado no meu estado.

Você também tem que ter seguro de carro nos EUA para ser legal, é obrigatório e na área de Newark, como tem a fama por ser uma das capitais com maior número de roubo de carros do mundo, meu seguro custava cerca de 230 dólares ao mês. A gasolina é cara e os preços dos aluguéis e alimentos são muito altos, nem se compara com os preços aqui no Brasil. Por isso, mesmo ganhando 2.500 dólares por mês (uns 9.375 BRL), você está vivendo na pobreza devido o custo de vida lá. Eu estava ganhando 1,600 dólares lá trabalhando como professor de rede pública. 

A taxa de desemprego na comunidade negra é muito alta, saúde então nem se fala (para não mencionar os milhares que eu devo depois de ficar doente e ser hospitalizado sem seguro - motivo que deixa muitas pessoas desabrigadas). Eu poderia falar sobre isso por dias porque a problemática é grave, mas para encerrar eu só quero que a população brasileira ou pelo menos as pessoas em São Paulo entendam que as pessoas migram por diferentes razões. 

Se tem alguém de fora morando aqui no Brasil, significa que o mesmo vê algum benefício nisso para ele próprio, provavelmente há algo que eles acham positivo, o que é bom ao meu ver. Eu não acho que você deva tentar diminuir isso dizendo a eles para voltarem para o país deles só porque você acredita em falsidades românticas de uma realidade que você não conhece efetivamente.

 

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