28/08/2019 às 18h04min - Atualizada em 28/08/2019 às 18h04min

Cuidado com o Cubo Branco

O que vira tema desta coluna é logo no começo quando ela fala de “cubo branco” para definir um modelo de sociedade idealizada das pessoas brancas, que é excludente e silencia tudo o que não é branco.

Exposição da Grada Kilomba Foto: Jose Frade

Toda a iniciativa de crescimento e autodesenvolvimento solidário periférico bem sucedida uma hora ou outra acaba esbarrando em entraves bem específicos ligados a um velho e conhecido elemento estruturante da sociedade brasileira. Evidente que não é preciso citar o nome, basta lembrar das heranças do colonialismo escravocrata e do capitalismo selvagem.  Há algumas semanas, eu dei de cara com um conceito novo que joga muita luz nessa equação. 

Eu estava com uma grande amiga e o irmão adolescente dela, de 15 anos, que quer ser médico, na Pinacoteca de São Paulo visitando as obras da Grada Kilomba. Éramos as três únicas pessoas negras e, provavelmente, periféricas, vendo os vídeos que compõem a exposição, a primeira individual da artista portuguesa e ativista do feminismo negro.

E dava “para cortar no ar” a sensação de mal-estar e constrangimento da platéia quando os vídeos desencadeiam uma narrativa que parte da mitologia grega clássica para uma discussão profunda e pertinente sobre o racismo. 

A artista conta e analisa, em dois vídeos curtos, a história de Narciso e Eco e a lenda do Rei Édipo.

O trecho que me chamou a atenção e que vira tema desta coluna é logo no começo quando ela fala de “cubo branco” para definir um modelo de sociedade idealizada das pessoas brancas, que é excludente e silencia tudo o que não é branco. A partir desta distorção putrefata se constroem as relações econômicas, acadêmicas, fraternais e sociais do racismo e seus privilégios, gerando os racistas de raiz e aqueles que se dizem não-racistas, mas que também não fazem nada contra ele. 

Esse tal Cubo Branco tá aí. Silenciosamente sem dormir atuante e à espreita. É incansável. Dentro dos espectros de raça e classe social ele define quem tem os privilégios e quem não pode entrar na festa, nem mesmo pelo elevador de serviço. 

O empreendedorismo solidário de periferia é uma afronta a essa lógica da exclusão, justamente  porque parte do princípio de união e aceitação da diversidade. É a força de muitos que faz o coletivo crescer. É o Ubuntu ( Eu sou porque nós somos)  que move essas iniciativas. Evidentemente que isso gera um choque direto com o Cubo Branco. Por isso, irmãs e irmãos, fiquem espertos e lembrem-se que os nossos passos vêm que longe. Não se esqueçam também de “quem esteve lado a lado e de quem só ficou na bota”. 

A exposição da Grada Kilomba vai até o dia 30 de setembro, imperdível e leva o bonde da quebrada junto. 

A Pinacoteca é do lado da estação Luz do Metrô. 
 

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