10/07/2019 às 12h55min - Atualizada em 10/07/2019 às 12h55min

Dreadlocs: cultura negra, amor e ato político

Aqui no Brasil era algo sujo e feio, hoje em dia virou modinha. Todo mundo quer “dread”, muitas vezes, sem a compreensão de que se trata de uma cultura ancestral, um estilo de vida com forte teor político.

Bixop e Lena Silva

Foto: Divulgação

Bixop e eu normalmente estamos sempre juntos. Em todos os lugares que passamos a nossa presença chama bastante atenção. Pensam que somos irmãos, porque um casal preto afrocentrado ainda não é normal de se vê por aqui, foi por isso que o rapper  Rincon Sapiência fez questão de botar na letra da sua música Ponta de Lança que “Pretos e Pretas estão se amando”. 

Imagina só! Uma preta com um grande afro redondo numa praça cheia de gente, sendo beijada por um preto de locs enquanto o vento envolve seus cabelos. Pra você pode parecer romântico, mas para outros, é um enfrentamento ousado e até mesmo tenebroso. Tenebroso como a palavra “Dreadlocks”, porque “Dread” quer dizer pavor, medo, horror, enfim tudo o que é ruim, e “Locks” fechar ou fechadura, sendo assim, a comunidade afro-americana passou a usar apenas a palavra Locs sem o (K) associando ao cabelo para diferenciar e resignificar o termo dreadlocks que é pejorativo para nós negros. 

Toda criança negra provavelmente já sofreu alguma agressão ou se sentiu desconfortável por causa de seu cabelo. Eu mesma, quando pequena, nunca tive problemas, até que um dia minha mãe e minhas tias decidiram passar em meus cabelos longos e crespos um alisante que não prestou deixando os meus cabelos bem feio, principalmente quando a raiz crescia e as pontas do cabelo ficavam esticadas, me deixando por muitas vezes constrangida. Meus primos, assim como outros meninos, também sofriam com essa questão do cabelo...alisavam, raspavam ou cortavam bem baixinho.
 


Foto: Lena Silva

Bixop fez diferente, com 7 anos de idade, iniciou seus Locs com o consentimento da sua mãe, mas quando foi estudar em uma instituição privada cheia de pessoas brancas, as risadas e piadas racistas de seus colegas de escola o fez cortar-los. Depois de um tempo e muita conversa com os mais velhos, ele voltou a cultivar os locs mesmo, na época, ainda não sendo um penteado cool. Aqui no Brasil era algo sujo e feio, hoje em dia virou modinha. Todo mundo quer “dread”, sem entender que é uma cultura ancestral, um estilo de vida com forte teor político.
 

Locs requer cuidados  como qualquer outro tipo de cabelo. Me senti no dever de aprender as técnicas para cuidar do cabelo do meu esposo, Bixop. Após um ano, de muita prática, parte do nosso sustento vem da arte de fazer locs, sendo para mim, muito legal poder trocar ideias e dicas com os meus clientes e vê-los satisfeitos com o resultado e com a autoestima lá em cima. É um universo poderoso e muito criativo, pois é possível fazer diferentes designs estilosos como os negros americanos costumam a usar, uma tendência que estamos trazendo para cá, empoderando nossos pretos e pretas daqui. 

Confira um pouco sobre Dreads em São Paulo com Lena Silva! 




Sobre os autores: Bixop e Lena Silva formam a dupla UmSoh, eles provavelmente são o primeiro casal periférico formado por um afro-americano e uma afro-brasileira, que juntos, fazem Rap & Soul abordando diferentes temáticas e difundindo suas culturas, além de incentivar as pessoas a aprenderem idiomas através da música. 

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