19/06/2019 às 15h25min - Atualizada em 19/06/2019 às 15h25min

E você? Também acredita que o Futebol de Várzea ensina?

Eu acredito que sim, e certamente muitas coisas. Uma delas é muito importante para quem está na luta do cotidiano para ganhar a vida ou mesmo na briga por uma sociedade mais justa.

Pedro Borges

Ju na Várzea
Desde moleque sou apaixonado por futebol. Quando pequeno, sonhava em ser jogador profissional. Queria jogar em estádios lotados, ganhar bem e comprar uma casa para os meus pais. Nada muito diferente de outros meninos negros das periferias do país, né?
Hoje, jogo futebol as vezes e acompanho menos o futebol profissional. Mais do que o campeonato brasileiro, acompanho o futebol de várzea, em especial o time de coração da minha família, o Inajar da Souza, time da favela da Divinéia, Zona Norte da cidade.
E foi em campos de terra, com pouca grama, muita lama, vestiário sem água quente, com encanamento estourado, que comecei a jogar. Sempre muito esforçado, dava carrinhos, disputava bolas e jogava com toda intensidade possível. Costumava voltar para casa todo sujo de barro, com as pernas e coxas raladas ou mesmo machudas. Nem ligava. No outro dia, se tivesse uma bola rolando, estava lá para jogar.

Vira e mexe fico pensando no tanto de coisas que aprendi no futebol de várzea, seja como jogador ou torcedor. Uma das paradas que mais carrego comigo, que aprendi enquanto jogava, é a diferença entre ser duro e desleal.
Eu gosto muito do jogo duro e odeio a deslealdade. Sempre joguei como meio campo e gostei de carregar a bola e deixar meus companheiros na cara do gol para marcar. Normalmente era “caçado” por marcadores e por isso tive que aprender a me defender.
Quando conduzia a bola e logo percebia que alguém chegaria para me fazer a falta, me protegia. Arrumava o corpo para segurar o impacto, se possível derrubar o adversário, e seguir com a bola. Adorava e adoro isso. Jogo duro e pegado!
Nunca gostei do jogo desleal, da pegada fora do lance, do tapa na cara, da cotovelada, ou rasteira. Sempre respondi isso da maneira como o jogo pedia.
Uma vez, jogando bola no CEFÓ, na Vila Penteado, zona norte de SP, passei por uma situação do tipo. Um jogador que me marcava a todo momento tentava chegar sem bola para me agredir. Depois da primeira, fiquei atento. Quando veio para me dar embaixo, deixei o braço em cima. O jogo parou, a discussão rolou, todos os jogadores em campo se aproximaram.
Depois, a partida seguiu, e o marcador passou a me respeitar. A chave mudou, a deslealdade ficou de lado e a dureza seguiu.
Carrego isso como regra para a minha vida. Gosto da luta política e do jornalismo pegados. Tenho tesão em fazer as coisas na raça, literalmente. Mas repúdio e muito a deslealdade.
Ela, porém, faz parte do jogo e quando aparece, deve ser respondida, para que o jogo volte a se desenvolver no campo ético.
Essa memória me é muito válida porque percebo que o futebol praticado em outros espaços: brancos, classe média, muitas vezes têm a dinâmica oposta. Qualquer chegada mais dura se descamba para o choro, ou muito rapidamente para a deslealdade.
Isso, certamente, está para além do futebol. Diz muito sobre como determinantes de raça, classe, território, gênero são fundamentais para a construção subjetiva das pessoas. Alguns repudiam a trairagem, valorizam e muito a dureza, enquanto outros aceitam e até comemoram o contrário.
Esse é um dos motivos que justifica minha presença na várzea: o prazer em acompanhar um esporte popular, preto e disputado na dureza e lealdade. Que a várzea siga como esse espaço importante de sociabilidade nas periferias.

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